O caminho da descoberta, uma jornada em busca de si

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Publicar os meus escritos nunca foi uma meta e tão pouco um objetivo. Os compartilho com poucas pessoas, pois mostrá-los é como tirar a roupa sem tirá-las, é estar nua sob o olhar alheio, é despir a alma. Porém, estou começando a ficar pronta para revelar minha alma despida.

Inicio com Clarice Lispector como uma oração de proteção…

Ao Linotipista

“…Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar…”

Onde vamos parar?

Infelizmente a história do nosso país não contribui para que possamos nos olhar como parte de um grande todo. Em hipótese alguma há um interesse pelo coletivo  e pelo bem estar de todos.
Somos divididos e classificados. Os interesses devem servir estes ou aqueles, mas nunca os brasileiros como um todo. Talvez demore anos para alcançarmos este nível de pensamento.
Cada um tem seu interesse particular, não importa o quanto irá prejudicar… “Eu quero que os meus direitos sejam respeitos, os dos outros não quero nem saber”…
“Eu vou desviar o dinheiro da saúde pública. Sempre foi assim, a corrupção sempre existiu, quero tirar o meu também.” Não importa os milhões de brasileiros que ficarão sem atendimento. “Nordestino não é gente”. “Quem é que gosta de pobre?”. “Você pensa que está falando com quem?”. “Esta gente burra”
Posso citar um exemplo da minha cidade de falta de pensamento coletivo, onde uma pequena parte da população se revoltou contra uma grande maioria que estava em busca de cultura, o caso do MIS é só mais um de muitos outros que existem, a lista é enorme.
O que mais me assusta são as consequências que isto tudo pode gerar.
Pessoas que não sabem olhar para o outro e reconhecer o direito que este também tem.
Portanto, os insultos, as agressões, as violências e  a “justiça com as próprias mãos” se farão valer para que se continue intocável e vivendo numa bolha. Julgando e apontando do seu castelo particular as escolhas democráticas (seu voto e escolha de candidato) a qual tem direito e, além delas, as pessoais e privadas e que não interferem em nada na vida de ninguém. Mas em nome da moralidade e dos bons costumes ferem e fazem sangrar.
Acham-se no direito de falar milhões de desaforos e ofensas em nome de uma verdade que dizem ser a única. Onde tudo isto vai parar?
Tenho medo, muito medo que este discurso raivoso e desenfreado, junto com um monte de boçais que existem por aí e que não admitem serem frustrados, destilando veneno e ódio tirem vidas inocentes que tem tanto direito de existir, pensar e escolher como todo ser humano tem. Tenho medo que em nome da falácia que pregam legitimem seu ato violento.
Está na hora de sair da grande bolha que divide e perceber que os outros tem tanto direito de existir, viver e ser respeitado como qualquer pessoa tem.
Faço um apelo à não violência e peço mais gentileza, respeito e amor, por favor!

Escrito em 17/10/2014.

Por Júlia Miguel

O banho revelador…

Estava no banho e de repente me senti de um jeito que não sei explicar. A água escorria sobre meu rosto e automaticamente comecei a acariciar minha face. Nunca havia me dado conta de que ela já não era a mesma ao longo dos anos.

Quantas coisas se passaram, quantas experiências, quantas lágrimas, quantas dores, quantas lembranças, quantos sorrisos. Creio que de tudo a única coisa que reconheço como inalterável diante do tempo é o meu sorriso. Sempre o mesmo, desde pequena. Não sei se alguém, algum dia, me convenceu que o sorriso é algo extraordinário ou se por intuição acreditava piamente nesta premissa: que o sorriso é o contato mais suave com outro ser humano. Sempre acreditei na sua força.

Começo a pensar nas pessoas que um dia fui, que já não sou mais e, no entanto, continuam aqui, parte de mim. Sou uma sequência destes encontros comigo mesma. Muitas vezes não me reconheci, outras aprendi, de vez em quando o registro da vida foi feito sem que eu pudesse perceber. Mas a vida estava li, muito maior do que eu, com um convite irresistível para uma grande aventura.

Agora, novamente diante de mim, percebo quantas batalhas tive que travar no secreto do meu ser, quantas venci, quantas perdi, quantas feridas abertas há de cicatrizar e tantas outras curadas pelo tempo. Após reconhecer-me, neste exato momento, dou-me uma trégua. Sei que sou guerreira, essa é mais uma coisa que também reconheço como inalterável em mim. Por pior que fossem todas as dores que vivi, sempre segui adiante, mesmo com pausas antes de continuar. A pausa nunca foi maior que o tempo necessário para me recuperar.

Desligo o chuveiro, a água parou de cair, saio do banho mais consciente de mim e pronta para aceitar esse convite irrecusável que é viver. Pronta para conhecer mais algumas dessas pessoas que sou e serei, nessa interminável sequência de encontros comigo mesma.

Por Júlia Miguel

Escrito em 15/11/2013

O silêncio do som…

O mundo anda agitado lá fora, mas aqui dentro faz um silêncio. Não me atrevo a pensar nem uma palavra sequer. Essa ausência de ruído é absoluta e necessária… Preciso viver o silêncio da alma… Talvez, envolta nesse som que não se faz, possa escutar a voz do meu pensamento e o eco do meu coração…

Por Júlia Miguel

Escrito em 14/11/2013

Para sempre çaçador de mim…

Hoje me lembrei de um dos momentos mais importantes da minha vida, que me fez descobrir um tantão de mim… Foi a primeira vez que estive comigo de verdade. Eu estava sentada diante de um cenário deslumbrante, eu ouvia a canção e agradecia… Eu estava lá para “abrir o peito a força numa procurar, fugir as armadilhas da mata escura.” E acreditar que “longe se vai sonhando demais,” e até questionar, “mas onde se chega assim?” Não importa, pois “vou descobrir o que me faz sentir, eu caçador de mim”…

Por Júlia Miguel

Nov 2013

Ao mestre da alegria, com amor

DSC00572espOntem você partiu, cumpriu sua missão junto a nós.
Mas deixou tanto de você…

Agora só saudade, só lembrança…

Recordo muito bem de uma noite de natal, há muito tempo atrás, na casa da vó.

Eu era pequena, estava no colo de alguém, você estava em pé tocando.

Eu olhava para você e você fazia mil caretas, eu ria, gargalhava e ninguém entendia a razão.

Quando olhavam para você, estava sério, tocando. A brincadeira era nossa.

Naquele momento, era só eu e você.

Sua alegria ficará sempre entre nós. As piadas engraçadas, os risos que fazia nascer, as paródias no violão, as músicas que tocava e cantávamos juntos.

Não vou dizer que fica um vazio, porque não fica. Fica um espaço recheado de tantas lembranças, tantos risos, tanta alegria, tanta piada, tanta graça, tanta vida.

Quando soube que sua partida era inevitável, recolhi todas nossas lindas lembranças, juntei ao meu coração e agradeci a generosidade da vida em  permitir que eu pudesse desfrutar da sua alegre e maravilhosa companhia.

Terá sempre um riso guardado, uma piada escondida, uma gargalhada solta. Terá sempre você nas minhas lembranças de garota…

Terá sempre você em mim, no meu amor, no amor da nossa família!

Haverá sempre um riso em algum lugar que nos recordará você! Saudade eterna Tio Nenê!

Meu pé de pitanga, meu sonho de criança

Meu sonho é ter um pé de pitanga. Uma vez minha vó me deu um, plantei no quintal e sonhei com o dia de comer suas frutinhas. Arrancaram sem pudor. Fiquei triste, destruíram meu sabor de infância. Tudo bem. Não desisti. Colhi algumas sementes que agora repousam na terra, logo meu pé brotará. Logo terei gosto de infância na boca. As frutinhas vermelhas serão colhidas por uma criança grande que não pára de sonhar com seu pé de pitanga…

Por Júlia Miguel

Escrito em 15/10/2013